Quarta-feira, Agosto 31, 2005

Sangue e dor











O lugar que vejo agora é um pouco diferente de onde passei todo o tempo
Agora, desde que passei pela árvore seca, uma névoa densa percorre o lugar e parece-se com um pântano
O lobo é tranqüilo, ele caminha por entre as folhas secas que ali existem sem nem ao menos olhar para trás
Eu contemplo a paisagem diversificada
Mas ouço um pio
O rosnado surge depressa e o lobo se vira com ódio
Olhando para o céu ele parece estar a ponto de matar alguém
Ele é lindo, mas ao mesmo tempo, horripilante
Olho para a mesma direção e vejo a coruja
“Está indo pelo caminho errado”
A coruja falou!
“Não! Ele fizera sua escolha!”
A voz do lobo
“Sabes que o fluxo pode ser revertido”
O fluxo? Sim, o velho me falou sobre o fluxo!
“Aziel, vá onde exista a cor, pois vermelho é a cor do sangue e negro é a junção das cores das trevas”
“Cala-te! Não atrapalhes a revigorar o que não lhe pertence!”
Estava presenciando uma briga
O prêmio por ela seria eu
“Faça o que é certo Aziel”
“Faça o que escolhera ou morra!”
Aquela última palavra me cortou como uma lâmina
Engoli um seco e vi que era meu fim
O lobo saltou sobre mim
Protegi-me com as mãos, mas nela fui abocanhado
Dei um urro de dor enquanto ele, com minha mão em sua boca, balançava ferozmente a cabeça
Foi quando se partiu
Carne e osso se desgrudaram e o que senti nunca foi pior
O sangue jorrava com força e eu apertei o que restara de minha mão
Ele se afastou um pouco e olhando para minha mão vi que só me restaram dois dedos
Ah dor, dor e dor!
Era o que me restava no momento
Nenhum pensamento me vinha na cabeça, somente a dor me estilhaçava
Novamente o lobo veio de um pulo e eu desvencilhei
Ao cair no chão do salto ele deu-me uma garrada que bateu em meu olho direito
Novamente a dor
“O fluxo pode ser mudado”
As palavras do velho me viam à cabeça
Era isso, meu fluxo não era esse
Fiz a escolha errada quando meu igual me pediu
E mesmo assim, com seu aviso, desejei errado
Oh lástimas! Peço perdão por tê-lo destruído
Mas o lobo irá me matar
Meu olho vaza em sangue e minha pele arde intensamente
Nunca havia visto tanto sangue em minha vida
Esta terra é constituída disso
Sangue dos pobres sonhadores que vem, assim como eu, para este maldito lugar
Em desespero eu tento me arrastar para uma das árvores e ele continua com o olhar de ódio
Com o meu sangue em sua boca, escorrendo, assim como meu rosto, ele rosna
A coruja vem em minha direção
Em um rasante ela me pega pelas patas e ergue vôo
O lobo uiva de uma forma bizarra
Estou voando
Mas a dor é intensa
Estou perdendo muita vitae e logo perecerei
A pena da coruja roça pelo meu rosto e o vento me dá um pequeno alívio
E cessa
A dor estabiliza momentaneamente ao mesmo tempo em que eu caio em direção ao chão
Caio no chão
A coruja segue para o mesmo lado que quando seguia quando a vi pela primeira vez
Com dois dedos apenas na mão direita e com cera de um terço do que tinha dela antes
Passo a outra mão pelo meu rosto para tateá-lo
Parece estar uma ferida horrível
Maldito lobo!
Por que não ouvi as súplicas dos que me avisaram!
Oh não, por vontade própria eu me entreguei
O livre-arbítrio me foi dado, até mesmo aqui, e eu o desperdicei
Deito no chão
Estou cansado demais
A dor me foi tirada pela coruja, mas volta aos poucos
Inclinando minha cabeça para trás no chão, vejo algo diferente
Sento-me e olho para o lugar
Uma ponte
Lá na frente, ergue-se uma montanha
Aonde há cor!
A montanha da coruja!
Levanto-me com dificuldade e percebo que minha sombra agora está me acompanhando
Mas, algo estranho
Ela está aportando, sem que eu o faça, pára a montanha
Minha sombra criara vida e me ajudara
Voltou para mim
É para lá que devo seguir
Muito ferido arrasto-me até lá