Terça-feira, Agosto 30, 2005

Os verdadeiros amigos













Caminhando por estas rochas eu sinto que o percurso não tem fim
Tão longo é este vale
Quem será aquele que me abordou e me deu tais conselhos?
Por que dar-me-ia ajuda sem mais nem menos?
Seria ele um anjo da guarda?
Mas anjo neste local?
Seria talvez...
Sim, por que não?
Mas, se fosse então um demônio, definitivamente, não daria-me conselho algum
A não ser que...
Ah! Perco-me sempre em lonjuras!
Não quero mais pensar em coisas banais
Logo encontrarei o tal lobo e sairei daqui
Ah, sim, de volta ao lar que nunca devia ter saído
Percebo que ao andar por horas não avisto nem sequer uma curva
Quão vasto seria estas rochas repugnantes?
E esse chão que emite tal névoa capaz de derrubar um homem pela náusea
Mas como já estou aqui faz muito tempo já me acostumei com esse cheiro
Mesmo assim é fétido
Não duvido que, tão estranho é esta terra, contenham corpos sob meus pés
Uma barulho atrás de mim
O que é?
Algumas pedras caíram lá de cima
Levanto minha face para o local e nada vejo
Não, espere!
Vejo sim!
Vejo algo que me lembra uma cauda
Uma cauda de lobo!
Grito como um desesperado chamando-o a atenção, mas é em vão
Ele não retorna
Pelo outro lado mais algumas pedras rolam ao chão
Mas nada de cauda outra vez lá no alto
As pedras que caíram espantaram a névoa ao meu redor
O solo também é avermelhado como eu já havia reparado, mas...
Sangue!
Oh santo Deus isso no chão é sangue!
Aonde diabos eu vim me meter!
A névoa vai tomando seu lugar novamente, menos em um ponto
Ali ela teima em permanecer sem cobrir o chão
Está perto a uma rocha maior que caíra
Sinto um leve tremor em volta das paredes que me cercam
dei uma volta para ver se encontrava de onde vinha o tremor
“Não devias confiar nele”
Uma voz atrás de mim!
Viro-me e contemplo algo horrendo de onde a névoa não tapara o solo
Um corpo humano ergue-se a minha frente
Alguém que jazeu aqui neste lugar agora me dirige a palavra
Olhando profundamente em meus olhos ele ainda fica calado um instante até abrir do que restou de uma mandíbula quase que inexistente
Não consigo ver muito bem, agora a névoa segue o corpo como um conjunto
Desprovido praticamente de tecido corporal rasteja em minha direção
“Fui teu igual, e pode ter certeza. Não escutes o que ele lhe diz”
Quem me diz o que?
Penso absorto na imagem que vejo
A voz é feminina e usava algum tipo de manto
“Dir-te-ei que nada aqui é melancólico”
“Mostrar-te-ei que nada aqui é doloroso”
“Mas dar-te-ei uma prova que deles não podemos obter verdades”

Não entendia o que aquela criatura queria me dizer
“Segura-te minha mão e peças por algo”
“Mas antes de pedir, penses bem, já lhe dei meu aviso, cumpri minha tarefa”

Ela esticou a mão e eu hesitei
Não olhava para a mão, mas sim para meus olhos
Vendo que ela possuía uma vontade, ou melhor dizendo, uma obrigação nisso, peguei em tua mão e o fitei
“Peças o que achar necessário e correto”
Pensei no lobo e que ao falar com ele encontraria o caminho da saída
Um turbilhão me queimava em volta ao terminar meu pensamento
Doía, mas era suportável
Como várias agulhas me espetando e ardendo em formigamento
Ainda segurava sua mão
Ao abrir os olhos, vi que ela se decompunha
Uma imagem ao mesmo tempo ruim, também magnífica!
A queimação cessava
Ela já não mais existia, havia evaporado
Foi entregue aquela névoa junto ao chão e se tornou parte dela
Daí que vem o cheiro
Meu igual ela me disse
Tantos como eu e em mesma posição aqui estiveram?
Que coisa triste de se ver, mas, então, será esse meu destino?
Ficar junto a eles? Junto a névoa? Junto ao nada que aqui prende?
Não, desejei encontrar a saída, desejei certo!
Nada me aconteceu, e sim a meu amigo
Hei de encontrar meu sábio lobo e seguir pelo caminho final
O caminho da volta
Um uivo corta o ar chegando em meus ouvidos
É hora de sair daqui...